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Dia #3: Dançando pagode russo na boate Cossaco

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[Esse deve ser disparado o maior texto do blog. Só o próximo se compara. Logo, senta e põe uma música, porque lá vem história.]

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Não sei se posso contar este como sendo mais um dia de viagem porque nessa parte eu já não sabia mais em que dia estava, que horas eram ou quantas horas faltavam para eu chegar a meu destino. Acelerar a passagem de fusos dá a impressão de que o dia passa mais rápido, isso é certo. Pelas minhas contas, voei oito horas de Lisboa para Moscou e cheguei 5h e pouco da manhã russa. Não sei explicar como.

Sobre o voo, aí sim pude aproveitar algumas coisas que acabei deixando passar na primeira oportunidade. Primeiro, poltrona na janela. Na verdade, tanto fazia: foi um voo praticamente fantasma, pois apesar de dois ônibus de gente terem tomado acento neste, o avião parecia grande o suficiente para comportar o triplo de passageiros. Assim sendo, tive três poltronas à minha disposição, e me dispus em todas. Segundo, a decolagem. Meu primeiro “chão de estrelas” visto do avião. É lindo. A visão aérea de Lisboa me deixou ainda com mais vontade de visitar as terras patrícias num futuro próximo. Quem sabe, na volta, não desperdiço um tempinho fora do aeroporto? Terceiro, comidinhas. Mais do mesmo, com acréscimo de mais sobremesas sem nome.

Depois de comer e me ambientar com o voo – e com a cortina que separava a primeira classe da classe onde eu estava –, pude voltar minha atenção à parte externa do avião. Viajar por cima da Europa à noite é algo lindo. Você vai passando pelas cidades iluminadas artificialmente e tentando reconhecer onde está, lembrando as aulas de Geografia em que você estava acordado e atento às explicações do professor. É majestoso. E mais majestoso ficou quando descobri que aquele negócio que crescia no horizonte era a Lua, parecendo uma baleia rosada no início e crescendo e tomando altura à medida que seguíamos. Era possível ver fábricas soltando fumaça, cidades em forma de letras, montanhas, lagos refletindo o luar. Literalmente era uma viagem.

Depois do apreço pelo voo noturno, chegara a hora de dar uma voltinha no banheirinho – o aperto comum depois das já usuais comidinhas. Na volta, reparei que a maioria da tripulação tinha estereótipo russo e que eles eram muito espertos em relação a se aproveitar do fato de que as poltronas do lado deles estavam geralmente vazias. Por quê? Ora, para dormir! Resolvi fazer o mesmo no meu cantinho e, como me entretive em tirar um cochilo, silenciei os pensamentos. Triste decisão. Comecei a ouvir o que eles faziam.

Não que eu seja a pessoa mais limpinha e educada que conheço, e não que toda pessoa de estereótipo russo seja como as que eu vi, mas flatulência em ambiente com muitos desconhecidos não é lá meu forte. Leve em consideração que gente russa é grande e larga e que havia uma proporcionalidade entre eles e o que eu ouvi. Sinto inveja do nível de liberdade que eles sentem. Pelo menos o cansaço me alcançou nessa corrida de fusos e acabei dormindo até pouco antes do pouso.

ImageMelhor para dentro que para fora, não é mesmo Fiona?”

Moscou. Maior latitude norte que eu já alcançara. Vista de cima, como vi Lisboa, parece ser uma cidade enorme. Imensa mesmo, do tipo que entre avistar e pousar decorre-se uns 10 ou 15 minutos. E aos meus olhos também uma cidade linda. Era quase manhã quando chegávamos, com os primeiros raios de sol já por subir, o que fazia da paisagem no horizonte um quadro a ser pintado. A aeronave veio fazendo uma descida circular no sentido horário e aterrissou devagarzinho na pista completamente coberta de neve no aeroporto de Domodedovo, no norte da capital russa. O avião após o pouso traçava um percurso em que parecia perseguir um carrinho que a uma velocidade alucinante na pista gelada. Quando eu crescer, quero ser motorista de carrinho russo que é perseguido por avião. Muita sinalização luminosa até chegar ao terminal de desembarque.

E um fato para o qual eu não havia atentado: Ela.

Foi só quando o tio comandante Bento anunciou que deveríamos recolher nossos pertences e nos dirigirmos à saída que comecei a sentir o quanto estava frio. Frio não, gelado nível Execução Aurora, ATAQUE! Atravessando a porta e entrando para o aeroporto tive a primeira sensação do quão gelado são as temperaturas negativas: pude ver minha própria expiração – e não estava em São Paulo.

ImageEnxergar o ar que se respira não é monopólio de capitais brasileiras.

Então teve início uma série de novidades das quais não me orgulho nem um pouco do meu desempenho de resposta em relação a elas. A mais imediata, obviamente, pegar a mala na esteira. Eu não fazia ideia de quanto tempo demoraria a ver minha marronzinha passando ali na minha frente, muito menos qual das três esteiras de recepção eu deveria ficar perto para pegá-la. Arrisquei de um lado, arrisquei de outro, e só aí percebi que muito provavelmente ficar próximo à esteira 2 era uma boa ideia se eu quisesse encontrar meus pertences, pois reconheci de longe um senhor que veio comigo no voo que partiu de Lisboa. Perambulei por entre os outros passageiros no sentido contrário da rotação da esteira e comecei a reparar o quanto sou baixinho para os padrões eslavos. Até a menina que aparentava uns 12 anos tinha a minha altura. Todas as outras pessoas, à exceção das menores, eram maiores que eu (sério?). Maiores e mais largas.

O número de malas foi diminuindo e a sensação de que minha não estaria naquela esteira foi aumentando, apesar de eu ter certeza de estar no lugar correto por conta do visor que agora eu via na minha frente piscando Lisboa-2 segundos-Moscou. De começo, não consegui ver nenhuma das malas por conta de ser um dos menores em altura à espera. Na medida em que as pessoas pegavam suas malas e saíam, eu conseguia me aproximar mais da esteira, mas depois de uns 10 minutos só tinha uma mala e não era a minha. Pô, cadê minha mala, véi?

- Lisabon? Lisabon?

“Perfeito, agora tem uma tiazinha querendo me vender alguma coisa”, pensei. Com um tom de voz engraçado porém meio irritante ela se aproximou de mim e tocou meu ombro. Mais uma vez perguntou: “Lisabon?” Eu lá sabia o quê que era Lisabon, minha irmã! Eu queria saber onde estava a minha mala! Olhei para ela com aquela cara de escárnio, e, num ímpeto alegre, a tiazinha me apontou o outro lado da esteira. “Lisabon!”, mais uma vez ela disse, para meu asco e surpresa momentânea. Era da minha mala que ela falava.

Ao avistar minha linda marronzinha percebi que o voo tinha deixado ela meio desgastada, com os plásticos de proteção até um pouco arrancados. Nada que indicasse violação, pelo menos. Foi quando a peguei no colo que entendi porque haviam-na separado das demais.

Antes de seguir, gostaria de perguntar, caro amiguinho, quantos palavrões você conhece e quantos deles você consegue esbravejar por 30 segundos. Você tem uma resposta exata? Não, vamos tentar então. Pare de ler e por meio minuto cite mentalmente todos os palavrões que conseguir. (30 segundos depois) Pronto? Foram muitos? Poucos? Pesados? Espero que tenhamos entrado em sintonia porque na hora não, mas agora que escrevo são inomináveis os vários impropérios que eu penso em dizer para filha da p%$#@ da tiazinha da mala. Por quê? A resposta também explica a razão de minhas coisinhas estarem separadas das demais: 21kg de bagagem com a rodinha quebrada para carregar, só isso.

O bom foi que na hora eu só peguei um carrinho desses do aeroporto para ajudar a transportar bagagem e fui-me embora. Confesso que o que me veio à mente naquele momento foi apenas “Como é que eu vou reclamar em russo?”. No final das contas, pela dor de cabeça evitada, acho que o que fiz foi de longe o mais saudável. Afinal, o que é uma rodinha de mala para quem comprou a passagem para o dia errado?

Sim, esse é só o segundo revés desta série de… não vou antecipar quantas. Eu sabia que tinha feito burrada e achava que poderia resolver no papo, na lábia, no jeitinho brasileiro que seja. Comprei minha passagem de Moscou para Lisboa pela internet na manhã da quarta-feira antes viagem e só descobri que a TAP não realizava voos para Moscou nas quintas-feiras na tarde do mesmo dia, quando fui lá ao guichê do Pinto Martins comprar minha passagem. No frigir dos ovos, ou eu chegava a Moscou sábado pela manhã antes das 6h ou perdia o voo que comprei pela internet. Nem preciso explicar mais para entender o tamanho da confusão.

Era manhã de domingo em Moscou. E domingo, amiguinho, a gente sabe que todo mundo acorda naquela disposição em qualquer lugar do mundo, para não dizer o contrário. Pelo menos os taxistas que entram no aeroporto e só faltam pegar você pelo braço plena 5 horas da manhã demonstram altíssima vontade de trabalhar. Ou de extorquir. Sentado na minha malinha, vendo o aeroporto de Domodedovo acordar, aproveitar a internet grátis e com boa velocidade para falar com meu pai, dar mais um sinal de vida e me manter calmo com as palavras dele – óbvio que não falei de problema algum! Esperei até ver movimento nos guichês e fui até o balcão de informações falar com a moça. Ela era simpática e parecia a Poliana das Lojas Paraíso de cabelo curto.

Vai que rola, né?

É difícil convencer alguém a ajudar em alguma coisa quando você sabe que está errado. Ela falava inglês, o que para mim foi razoavelmente uma vantagem, mas não era ela que resolvia o problema. Ela apenas me indicou qual guichê de companhia eu deveria me dirigir e pronto, ficou nisso. Eu e meu erro em mãos. Foi aí que comecei a entrar em contato com a galera da AIESEC Tajikistan. E com AIESEC, amiguinhos, você nunca está sozinho, tenha certeza.

Por e-mail pude enviar detalhes da minha situação ao Fayzullo Mamadkhonov, meu futuro buddy (em linhas gerais, é o amigo que trabalha na AIESEC que vai recebe você e o acompanha nos primeiros dias). Ele me disse para ter calma – óbvio – e para esperar, pois o “irmão” dele viria me ajudar com a troca da passagem no aeroporto em algumas horas (já já vocês entendem o porquê dessas aspas). Nada mal.

Esperei. Esperei muito, a propósito. A manhã inteira perambulei pelo aeroporto, que não era tão grande quanto o dia Lisboa mas ainda botava no bolso com sobras o Pinto Martins. Com o jogo dos fusos ainda rolando não sabia se eu estava com fome, com sono ou só com manha mesmo. Pelo sim ou pelo não, resolvi sentar e tentar tirar um cochilo. De vez em quando ligava o notebook para ver se havia alguma novidade no e-mail. Como a temperatura no terminal era razoavelmente agradável, desabotoei o casaco sentei ao lado de um brother de cabelo raspado. Recomendo a partir do consequente ocorrido que, ao viajar sozinho, traje algo que faça as pessoas reconhecerem sua nacionalidade.

- Você é brasileiro? – perguntou o careca, que parecia ter uns 30 e poucos anos e aparentava ser um viajante para lá de rodado.

- Hum?

- Brasileiro? – ele insistiu. – É que sua camisa…

- Ah, legal né? Sou brasileiro sim. Lá eles vendem essas camisas baratinho, comprei para viajar.

- Ótimo. Meu nome Mitri. Você está viajando para onde?

- Duchambê, no Tajiquistão.

- O que você vai fazer lá?

E assim se foram bons minutos de conversa. Expliquei para ele sobre a oportunidade de intercâmbio que eu tinha recebido, sobre a vontade que eu tinha de conhecer um lugar bem diferente, sobre esta ser minha primeira viagem internacional… ele me falou que era da Geórgia, que estava voltando para casa, que ele e a mulher dele eram professores também. Então falei para ele que não falava russo ou tajique e ele disse que podia me ajudar se eu precisasse ali no aeroporto, porque o voo dele só chegaria bem mais tarde. Logo me veio a ideia de trocar dinheiro e comer.

Não, não houve burrada aí. Talvez burradinha, mas não burrada. A gente foi conversando até o andar inferior e trocou os dólares que eu tinha em rublos – Allah abençoe a valorização do câmbio para a moeda estadunidense, omin. A moça arranhava no inglês, então eu podia ter feito sozinho. Comer, da mesma forma: self service, prato, dinheiro, paga. Sem uma palavra. Fatos esses que tornaram a presença do brother desnecessária. Perdi o companheiro de conversas. Logo, burradinha, não burrada completa.

Almocei uma mistureba de macarrão e temperos conhecidos por medo de ter um piriri estomacal. E assistindo Mr. M na TV – sim, o paladino mascarado – na dublagem russa. Não tinha noção se o que eu tinha pagado era caro ou barato ou se ia me fazer falta, só sei que estava gostoso. Na saída vi que o guichê da companhia que eu comprara a passagem tinha uma moça e fui lá, tentar resolver meu problema. Doce ilusão: só rolou um “Desculpa, eu não falo inglês” e pronto. Aí o que me restava era esperar pela chegada do primo.

Pelo Skype um amigo do Fayzullo me dizia que eu devia esperar por um cara de cabelo encaracolado e que em duas horas ele estaria junto a mim. Com a minha bateria do notebook acabando e sem achar tomada nenhuma para roubar um pouquinho de recarga, o jeito foi me acomodar e esperar pela chegada do indivíduo. Peguei um papel na mochila, um marcador de quadro branco, escrevi o nome do carinha e preguei com fita adesiva – exato, eu levei fita adesiva e não levei um chinelo para essa viagem – o papel no carrinho de aeroporto. A tia de etnia oriental que sentava do meu lado, quando me viu de desenhar, começou a puxar comigo um papo em sei lá que língua e me pediu papel e caneta para desenhar o que ela queria que eu entendesse. Sério, o time dela no Imagem & Ação deveria ficar fulo da vida com ela o tempo todo: anos e anos de estudos linguísticos e até hoje eu não sei o que diabos tem a ver 2012 com algo semelhante a uma bola de praia e um bonequinho de palitos com uma linha saindo da cabeça que ela estava querendo me explicar. Depois de rir um pouco do quanto não nos entendíamos – o que incita uma agonia sem tamanho, confesso –, fui dar uma voltinha ali por perto. Janelas. Ainda não tinha reparado que havia uma cidade ali fora.

ImageRetrato falado do desenho da tia. Decifre você.

Atraído pela alvura da vida além-aeroporto me aproximei a passos lentos dos vidros. Era como se eu não quisesse chegar perto, quase a mesma sensação de quando você está perto de terminar de ler um livro e não quer se apressar para chegar às últimas páginas. Ainda assim fui. Óbvio que sem perder de vista a bagagem. Parei e ensimesmei: Ela.

Acho que no dia anterior à minha chegada deve ter nevado um sucesso e meio em Moscou. A cidade inteira, até onde minha vista pôde alcançar, estava vestida de noiva. Branquinha, branquinha. Carros cinzas brancos, árvores brancas, asfalto marrom branco, prédios brancos. O botão de ajuste de contraste e brilho da paisagem tinha travado no máximo de intenso.

ImageRatinho do Castelo Rá-tim-bum entende do que falo.

Não me dei ao luxo de ir até Ela, enfim. Voltei para meu lugarzinho e esperei mais uns quinze minutos. Não que houvesse desespero, mas minha paciência e baterias estavam no fim e eu precisava fazer algo concreto. Resolvi então mandar mais um e-mail para entender a razão de tanta demora – quase uma hora mais que o programado inicialmente – e checar se algo havia dado errado. Aí vi que velozmente um carinha de gorro vinha na minha direção enquanto eu ligava o notebook e parei. “Vander, tudo bem? Abdulsalom, sou eu. Esse do papel. Sou eu.” Vontade de abraçar o cara não faltou, pode ter certeza. Senti-me sendo resgatado. Só era complicado saber que era mesmo o cara de cabelo encaracolado por quem eu esperava por conta do gorro.

O “irmão” do Fayzullo é o tipo de pessoa que vai para o céu com certeza. Paciente, companheiro, atento, resolvido. Se eu pudesse escolher uma pessoa para me ajudar naquele momento de estafa, falta de clareza e essas outras coisas que fazem pessoas tomar Centrum, era exatamente o Abdul de quem eu gostaria de depender. A gente demorou no aeroporto mais ou menos uma hora, que se estenderam entre eu explicar o que havia acontecido, a gente falar com meu pai pelo Skype e juntos irmos até o guichê da companhia da qual eu comprara a passagem até a gente trocar dinheiro e decidir qual era a melhor maneira de chegar a Duchambê. Fizemos o que podíamos para nos livrarmos de mim ainda ali. Contudo, ele viera resoluto sobre a sequência do que deveríamos fazer. Casa, comida, e viagem no outro dia. Mais perfeito impossível.

Toda história tem por base certo ponto de vista. Não me imagino não cometendo as burradas que citei – por isso até acho que foram inconscientemente propositais. E justamente por conta delas pude entrar no turbilhão de sensações mágicas da cidade branca que chamam de capital da Rússia. A primeira e mais romântica: conhecê-La.

São poucas as coisas desta vida que já me deixaram quase sem palavras para descrever. Ter neve soprando no meu rosto é uma delas. Acho que quem vai no mar pela primeira vez sente um negócio parecido. É algo que você engasga de felicidade, que dá vontade de correr e de gritar ao mesmo tempo e de pular e se jogar. É divino. É apaixonante. É injusto que nem todo mundo possa pelo menos uma vez na vida se deixar banhar pelo algodão gelado que cai do céu.  Delícia maior quando se fecha os olhos e se deixa tocar. Parecia que eu tinha esperado minha vida toda para conhecer. Triste que momentos assim só acontecem uma vez por vida.

Ela é linda.

Lembro-me de estar saindo do aeroporto de Domodedovo pela porta giratória gigante e ter esse breve vislumbre. Foram só segundos entre eu começar a rir sozinho e o Abdul gritar para eu me apressar – -15°C, amiguinhos… não dava para ficar frescando na rua não. Aí veio a segunda sensação legal: topic russa.

Já disse o quanto o povo do lado de lá dos Urais é grande. Largo também. Como então é o transporte público para essa galera? Ora, enorme. De matar de inveja todos os motoristas da 03. Sem contar que mesmo lotado deve ir pouca gente. O micro-ônibus – modo de dizer, porque o bicho era maior que as Volares daí – que a gente pegou estava vazio e quentinho. Deveria caber uns 13 russos sentados, no máximo. Sentamos nos acentos da frente, esperamos um pouco e fomos curtindo a viagem até o centro, o que durou uns 15 minutos. Sair e andar no gelo, na sequência, foi a terceira sensação legal.

Stairway to heaven

As ruas escorregadias pelo menos ajudavam o Abdul a carregar minha mala sem rodinha enquanto comutávamos entre um transporte e outro. Na breve caminhada entre a parada do micro-ônibus e as escadarias para o subsolo para onde nos dirigíamos, ele me apontava para onde ficava a estátua de Lênin, a Praça Vermelha e como fazer para chegar até o Kremlin – não faço ideia se essas referências fazem sentido, eu estava no modo apenas captura. Últimos momentos de inércia, felizmente.

Mais de dois meses para entender o que era aquela experiência e não foi uma palavra que me tirou do meu estágio letárgico. Juro, esse “modo” foi algo que eu tentava mas não conseguia me livrar desde que dei por certo a ida para o Tajiquistão. Machuquei muita gente por conta disso – mais ou menos como o Adam Sandler no Click – e me arrependo muito. Meu estado internalizado de percepção do mundo quebrou-se no descer daqueles degraus. Um velhinho, um acordeom, e a música mais linda que eu já ouvi na vida. Epifania: meu intercâmbio começara.

ImageSó os fortes entenderão.

“P$#@ QUE PARÍU! EU NÃO ACREDITO QUE ISSO TÁ ACONTECENDO, P%$#@!!!”

Foi o que gritei em bom português para quem quisesse escutar enquanto tirava a câmera da bolsa para o Abdulsalom tirar uma foto minha com aquele cara. Sabe aquela sensação de quase-morte que as pessoas dizem ter em determinadas experiências, quando veem o filme da própria vida passando à frente dos olhos? Pois é, acho que tive uma experiência de quase-vida, por falta de termo mais adequado. Nos três segundos após a foto eu lembrei tudo, absolutamente tudo o que eu vivi para estar ali e meus olhos marejaram. Foi tão intenso meu libertar de mim mesmo que o Abdul até perguntou se estava tudo bem comigo. E a música… ah, a música… Daí para frente eu não parei de perguntar mais sobre tudo o que via.

Bolsa na frente do corpo para pegar a fila do ticket do metrô. Cada estação nova tinha uma arquitetura diferenciada. Uma em rococó, a outra marrom gótica, a seguinte limpíssima, a outra com um verde musgo, mais uma com azulejo de piscina, na posterior a própria piscina. Cada uma tinha uma terminação engraçada (-kaya, acho) e o adesivo na parede do transporte ajudava a entender o mapa da linha. A gente ainda foi para a superfície, para que o destino me desse uma noção do gelado que a tundra russa suportava nos invernos e ainda assim deixava a paisagem uma lindeza só. Rolou ainda um casal discutindo nos acentos à nossa frente e um senhor sem as pernas fardado com uniforme do exército russo pedindo esmolas, numa cadeira de rodas. Saindo do metrô a noite caía. -25°C no termômetro e a gente tendo que caminhar a distância de um quarteirão. Pela segunda vez na vida eu expirava e via o conteúdo do que estava nos meus pulmões. Mais uns 15 minutinhos com o Abdul abrigados do frio intenso e pudemos pegar o trem para casa dele. Aí então entendi o porquê de o rapaz ter demorado tanto para conseguir me achar: eu estava no aeroporto do norte da cidade e ele morava no sul.

Tendo acordado para a vida pude ter meu primeiro choque cultural: telefone. Leve em consideração que o minuto de ligação custa 3 centavos de rublos e aí você entende porque o Abdusalom não reclamou quase nada em carregar minha mala por quase duas horas de viagem. O tempo todo ele estava pendurado no telefone. Eu até tentei perguntar com quem tanto ele falava, mas ele dizia “Um minutinho… deixa só eu terminar aqui” e me esquecia. Quando ele não ligava a gente ouvia intermináveis vezes o Nokia tune. Entre uma conversa e outra ele me explicava alguma das minhas perguntas. Logo, bom para ambos.

Mas uma breve caminhada após deixar o trem e tive meu primeiro contato com a arquitetura socialista. Prédios, todos iguais. Deve ser um saco procurar endereço, porque não existem pontos de referência – é tudo igual, pô! Subimos de elevador até o sexto andar do bloco 17 e comemoramos o fato de nossas mãos não terem congelado. Dois toques na campainha e a porta se abriu. Segundo choque cultural no susto.

A tia Sofia, mãe do Fayzullo que seria meu buddy, abriu a porta com um sorrisão mais que de orelha a orelha, lindo. Lindo e dourado. Choque: perceber o quanto higiene oral não passa nem próximo das prioridades da maioria das pessoas daqui. Passado esse segundo impacto, o primeiro ímpeto que tive foi de abraçá-la, claro, pois favor do tamanho do que ela estava me fazendo, em me abrigar e me alimentar, não tinha preço. Mas nem dar as mãos pude. Em Moscou, faça como os moscovitas.

A primeira impressão que tive sobre o ambiente família tajique é de que o convidado é o rei. Eles tentam deixar você o mais à vontade possível em qualquer momento. Lembrei como o Felipe Ramirez chegou a primeira vez lá em casa e o pessoal meio que se escondeu para não interagir com o novo irmão logo de cara. Na casa do Abdulsalom veio TODO MUNDO me ver na porta ainda. Os rostos deles diziam algo como “Caraca, é assim que é um brasileiro?!”. Gostei, foi caloroso, mesmo sem contato físico. Aí me apresentaram o apartamento: a cozinha, o quarto dos pais, a sala e o quarto (que eram ambos o mesmo espaço), o banheiro e o toalete – como assim banheiro E toalete? Guardei a angústia de perguntar naquele momento e me apressei em recarregar minhas baterias de notebook, celular e câmera. Enquanto isso, eles dispunham a mesa para o jantar.

ImageBathroom ou toilet? Bora ensinar isso aí direitinho, né professores de inglês? Ou é a mesma coisa ou é diferente!

Perguntas e mais perguntas ao longo dos preparos. Entre elas, as explicações sobre as relações familiares. Falei dos meus pais e irmãos e perguntei sobre eles. Eles me falaram do Fayzullo, que estava em Duchambê e era filho da tia Sofia. O Abdulsalom era irmão dele, mas não era filho da tia Sofia. Mas o pirralhinho que fala russo, tajique e inglês era filho da tia Sofia e irmão do Fayzullo. O pai não era pai do Abdulsalom, mas era pai dos irmãos deles que estavam com a gente… Como assim? Que família é essa? Depois de muito tentar entender captei a mensagem: não há palavra em tajique para indicar “irmão”, daí primo, sobrinho, tudo que tem mais ou menos a mesma idade se chamar por irmão. Ah, agora faz mais sentido.

Fizeram-me sentar em uma posição central em relação à mesa. Vi os talheres mas não vi pratos. A conversa continuou por alguns minutos enquanto o pai da família se aprontava no quarto. A janta era um arroz com carne que é uma das comidas típicas tajiques e que eles chamam de osh palov, ou só osh mesmo (lê-se “ôchi”, como nossa interjeição). Aí não entendi porque todo mundo me olhava enquanto eu tirava fotos da comida, das saladinhas, dos suquinhos, porque não era um olhar de curiosidade, era um olhar incisivo, como se quisessem algo de mim.

Bio, Vander, bio!!! – esbravejou a tia Sofia, sorrindo aquele sorrisão dela.

– Quê que ela disse, Abdulsalom? – olhei para meu tradutor.

– Você é o convidado, Vander. Você tem que comer primeiro.

– Direto da tijela?

– Sim, VANDER! BIO, BIO!!! – insistiu a tia.

Imediatamente peguei a colher e taquei na tijela. Depois disso todo mundo pode avançar. Com a mão mesmo, sem pena e com uma técnica apuradíssima. Caraca, foi muito engraçado! Todo mundo esperando eu chegar para jantar, quando chego eles preparam as coisas nas pressas para comer logo e aí eu, sem querer, fico fazendo hora. E de garfinho, fazendo o maior papel de besta. Pô, foi mal aí, velho! Não tinha manual de instruções sobre etiqueta tajique à mesa de onde eu vim.

Junte bom humor, fome e vontade de comer e tenha uma das melhores refeições de sua vida. Nossa, um prato que é uma simplicidade só e muito por conta disso é ao mesmo tempo uma delícia. Deve ser o preparo com amor para visitantes. Choque cultural número 3 em menos de 3 horas: refeições em família. Tá bom issaqui, viu?

Raitimbora, mã!

Jantar, lavar, escovar os dentes porque não quero entrar na galera do dourado, fotos. Madrugada concretizando minha missão combinada com a Dinara mais uma vez (Lisboa, check; Moscou, check – difícil foi lembrar qual dos dois tinha o troninho). Um sono dos deuses na única cama de solteiro da casa – que também servia de sofá – e todo mundo no chão. Boa noite…

– Acorda, Vander!!! – uma voz no telefone gritou.

– Drbrlbdmlnma… – eu, babando e tentando responder.

Bio, Vander! É uma hora da tarde e você tem que almoçar!

Agora eu reconhecia que o “irmão” do Fayzullo segurava o telefone próximo ao meu ouvido para o Abdulsalom falar comigo. Nossa, devo ter dormido mais de 10 horas tranquilo. Acordando, vejo em minha frente a mesa posta com uma porção de batata cozida mergulhada em óleo, carne e suco de abacaxi para me dar energia – de sobra – para o dia. “Come que eu já tô chegando para a gente comprar as passagens, certo?”

No dia anterior, conversando com o Abdulsalom e com o meu pai chegamos à conclusão de que eu deveria sacar do cartão VTM (sugiro a todo viajante, sem exceção, ter um desses) a grana necessária para comprar as passagens e no Brasil o coroa transferiria o que tivesse da conta do Banco do Brasil para este cartão, haja vista o primeiro estar funcionando e o outro não. Assim fizemos. Tive tempo ainda de assistir a um dos irmãos rezar no estilo muçulmano e a uns vídeos do Youtube sobre um estudioso do Islã chamado Ahmad Deedat – que falava sobre as 25 citações de Jesus e apenas 5 de Maomé no Corão. Interessante. Passeei de micro-ônibus e sem malas com o Abdulsalom na tarde fria de Moscou e fomos e voltamos até um centro comercial onde pude comprar minha passagem para Duchambê pela módica quantia de 6200 rublos (quase 400 reais). Conheci mais da cidade nesse ir e vir – o que me deixou ainda com mais vontade de dar um rolê depois -, comprei chocolate para pagar pelo menos em parte todos os favores que o Abdul tinha me feito e fiquei morrendo de vontade de conhecer o resto da capital russa. No final das contas, só tive tempo de voltar para o apartamento no fim da tarde, pegar as malas, despedir-me com um discurso mal traduzido e sem abraços da minha primeira família tajique e pagar 2000 rublos (125 dinheirus brasilis) para o táxi ir nos deixar no aeroporto de Vnukovo. A autoestrada imensa com 6 vias indo e 6 voltando, a noite caindo, o taxista voando baixo. Aeroporto. Revista. Um abraço muito forte.

ImageOs anjos têm sim cabelos encaracolados.

Cada um tem a cordilheira que merece.